Atualmente, o consumo de gordura
tem sido muito discutido em função da relação
de sua elevada ingestão com o desenvolvimento de
doenças cardiovasculares e circulatórias.
O controle da epidemia das doenças cardiovasculares
tem sido realizado adotando-se novos hábitos de vida
em conjunto com uma alimentação
controlada em gordura total e reduzida em gordura saturada e
colesterol.
Entre os diferentes tópicos inseridos neste contexto,
o significado nutricional da presença de ácidos
graxos trans em óleos e gorduras hidrogenadas assume
um importante papel, pois estes interferem no metabolismo dos
ácidos graxos essenciais, possuem propriedades físicas,
químicas e metabólicas comparáveis aos
ácidos graxos saturados e muitas questões são
relacionadas à absorção, catabolismo e
incorporação dos mesmos nas membranas celulares,
porém ainda não completamente elucidadas.
Os ácidos graxos insaturados que apresentam uma ou mais
duplas ligações, podem formar isômeros geométricos,
uma vez que os segmentos da cadeia carbônica adjacentes
à dupla podem situar-se do mesmo lado (isômeros
cis) ou em posições opostas (isômeros trans),
mantendo a molécula reta.
Nos alimentos de origem vegetal, os ácidos graxos apresentam-se
predominantemente na forma de cis, sendo os isômeros trans
praticamente inexistentes, ou presentes em quantidades muito
pequenas em óleos e gorduras vegetais. Já em produtos
de origem animal, especialmente nos leites e derivados, a quantidade
de ácidos graxos trans pode chegar em até 5% do
total de ácidos graxos presentes na totalidade da gordura.
Estes isômeros trans são formados por um processo
de hidrogenação específica resultante da
atividade microbiana do lúmen sobre os ácidos
graxos mono e polinsaturados que derivam da dieta desses animais.
A maior contribuição, entretanto, dos ácidos
graxos trans na dieta origina-se do consumo de óleos
e gorduras hidrogenadas, principalmente das margarinas. O processo
de hidrogenação industrial consiste na adição
de hidrogênio às duplas ligações
dos ácidos graxos insaturados dos óleos vegetais.
Além da eliminação de algumas duplas ligações
pela saturação, durante o processo de hidrogenação
algumas dessas duplas ligações podem adquirir
a configuração trans e mudar de posição
ao longo da cadeia.
Os ácidos graxos trans, ingeridos e absorvidos são
usados como fonte de energia e degradados pelas mesmas vias
metabólicas dos cis, através da b -oxidação.
No entanto, eles tem sido implicados na etiologia de várias
disfunções metabólicas, provocando fragilidade
dos eritrócitos, entumecimento mitocondrial, reduzindo
o consumo de oxigênio e síntese de ATP, especialmente
no fígado. Além disso, os ácidos graxos
trans podem substituir os ácidos graxos essenciais nos
tecidos e competir por enzimas específicas fundamentais,
o que resulta no bloqueio do metabolismo dos ácidos graxos
essenciais.
Recentemente, outras importantes implicações
nutricionais dos ácidos graxos trans têm sido extensivamente
estudadas. Demonstra-se que ocorre um aumento plasmático
das lipoproteínas de baixa densidade (LDL), e uma diminuição
das lipoproteínas de alta densidade (HDL). Este fato
contribui para o desenvolvimento das doenças cardiovasculares.
Em estudos recentes, os resultados confirmam a importância
na redução da ingestão de gordura saturada
bem como dos ácidos graxos trans por terem papel similar
na patogenia de coronariopatia. No Consenso Brasileiro sobre
Hiperlipemia da SBC – Departamento de Arterosclerose (1993-1996)
estão contidas afirmações segundo a qual
deve-se orientar a redução na ingestão
de gordura saturada. Indiretamente, sugere-se que o uso de Halvarina
– livre de ácidos graxos trans – deve substituir
a manteiga e margarina.
QUANTIDADE DE ÁCIDOS GRAXOS TRANS
ALIMENTOS FONTES DE GORDURAS
| Tipo de gordura |
Valores médios
de ác. Graxos trans |
Gordura hidrogenada
|
39.7 % |
Margarinas duras
|
32.2 % |
Creme vegetal
|
23.1 % |
Margarina cremosa
|
20.7 % |
Manteiga
|
4 a 6.2 % |